Congregação divulgará cartas escritas por Dorothy para exigir justiça no campo
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 - violência
Brasília - O quinto ano da morte
da missionária norte-americana Dorothy Stang será lembrado com a
divulgação de várias cartas escritas por ela e de documentos que
portava quando foi morta a tiros no município paraense de Anapu.
Segundo freiras da
Congregação de Notre Dame, da qual Dorothy fazia parte, o objetivo
é cobrar o julgamento de um dos acusados de mandante do crime,
ocorrido em 12 de fevereiro de 2005. Elas querem também chamar a
atenção das autoridades para os conflitos de terra que ainda
ocorrem no Pará e para supostas fraudes em documentos para obtenção
de financiamento públicos.
“O que estamos tentando fazer,
com os poucos recursos e o pouquíssimo conhecimento que temos, é
trazer isso [as cartas da irmã Dorothy] a público e esperar
que as autoridades se preocupem, façam uma investigação bem melhor
e esclarecedora”, disse à Agência Brasil a irmã Rebeca
Spires. “O combate à impunidade é nossa meta, nosso ideal, nosso
esforço”, completou Rebeca, que trabalhou mais de 30 anos com
Dorothy.
Segundo a religiosa, em seu trabalho pelos pobres,
irmã Dorothy documentava todas as ações que fazia. Enviava cartas
a representantes de vários órgãos na região, como o Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), muitas vezes escritas de próprio punho, para tentar fazer
valer a lei e também evitar a destruição da floresta.
“A
Dorothy não tinha a mesma meta que nós, de desvendar e quebrar esse
crime organizado. A meta dela era colocar aqueles lavradores na
terra, assim como o governo havia prometido em documento. Não só
promessas, mas colocá-los lá em paz”, argumentou Rebeca.
“Ela
denunciava cada infração. E eram muitas. Com aquela constante
perturbação, ela conseguiu a aplicação de multas e indiciamentos
[a fazendeiros e grileiros]”, disse Rebeca. Para ela, esse
teria sido o motivo da morte de Dorothy Stang. “Estamos convencidos
de que isso que provocou a morte dela. Não era só o lote de terra.
Era porque ela estava atrapalhando essa série de crimes que eles
cometeram. E a gente foi descobrindo, estudando a documentação que
ela nos deixou”, acrescentou.
Em uma das cartas, escrita em
19 de fevereiro de 2004, Dorothy denuncia às “autoridades de
segurança pública”, que famílias do Lote 16, na Gleba Bacajá,
em Anapu, estavam sendo ameaçadas por um madeireiro e por “homens
armados”.
Segundo a carta, na ocasião, o fazendeiro estaria
também ameaçando trabalhadores de uma firma contratada pelo Incra
para fazer a demarcação dos projetos de desenvolvimento social
(PDS) criados por Dorothy. “Ele já ameaçou os agrimensores dessa
firma contratada pelo Incra para tirar os perímetros oficiais do
PDS. Esses homens da firma saíram da mata para não morrer”, diz a
carta.
Irmã Rebeca disse que problemas semelhantes ainda
ocorrem na região, muitos deles, segundo ela, com apoio de
políticos. “Olha, é bastante complicado, por aquilo que as nossas
irmãs que moram lá contam. Os pistoleiros rondam a área, ainda
ocorre desmatamento. O povo tomou iniciativa de parar caminhões de
madeira, o Ibama apareceu depois, porque o povo chamou. Mas uma ação
eficaz para deter a grilagem e a exploração ilegal da madeira não
está acontecendo por parte oficial”, afirmou.
Ela informou
que, como o dia 12, data da morte de Dorothy, coincidirá com o
período de carnaval, as manifestações em homenagem à missionária,
serão realizadas ainda nesta semana, em Anapu e em Belém.
“Em
Anapu, todos os anos, na data do aniversário, são realizadas
manifestações o dia inteiro, até noite adentro. Aqui na capital,
haverá manifestação em frente ao tribunal [de Justiça do
Pará]. Haverá muitas manifestações.” Irmã Rebeca espera
que isso provoque também as autoridades a fazer sua parte. “Talvez
não façam, porque a gente vai diretamente a eles, então a gente
vai por fora também.”
_____________ Agência Brasil
|